Mais de 700 pessoas participaram, ao longo de dois dias, do Encontro de Resseguro do Rio de Janeiro, que retornou à agenda do mercado segurador e ressegurador após sete anos. Em sua nona edição, o evento reuniu especialistas do setor, advogados, empresários, representantes do governo e lideranças do mercado para discutir os principais desafios da indústria em um cenário marcado por mudanças climáticas, tensões geopolíticas, transformação digital e revisão regulatória.
Realizado pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) e pela Federação Nacional das Empresas de Resseguro (Fenaber), o encontro contou com 28 patrocinadores e se consolidou como um dos principais fóruns de discussão sobre seguros e resseguros da América Latina. A programação reuniu plenárias, debates técnicos e cinco painéis dos Resseguros Talks, voltados à troca de experiências e à análise de tendências que afetam diretamente a capacidade de proteção de empresas, governos e grandes projetos.
Logo na abertura dos debates, o ambiente de negócios e as perspectivas do mercado de resseguro no Brasil foram colocados no centro da agenda. A plenária discutiu os efeitos da inflação persistente, da volatilidade econômica, do excesso de capital global e dos eventos climáticos extremos sobre o setor, em linha com os temas tratados pelo Notícias do Seguro durante a cobertura do evento.
As mudanças climáticas também ocuparam papel central nas discussões. Especialistas analisaram como políticas climáticas, critérios de sustentabilidade, taxonomia, mecanismos de mitigação e soluções de resiliência vêm remodelando a atuação de seguradoras e resseguradoras. O debate reforçou a necessidade de instrumentos capazes de reduzir impactos econômicos e sociais provocados por eventos extremos.
Outro eixo estratégico foi o ambiente regulatório. A programação abordou os primeiros meses da nova Lei de Seguros, seus efeitos sobre o mercado e a necessidade de alinhamento das regras brasileiras a padrões internacionais. Em outro painel, especialistas alertaram para o risco de uma regulamentação excessivamente rígida limitar a liberdade contratual e reduzir a atratividade do Brasil para a capacidade internacional de resseguro.
A gestão de riscos em um mundo em transição também ganhou destaque. Em meio a guerras, instabilidade geopolítica, riscos climáticos e avanços tecnológicos, o evento discutiu como empresas precisam revisar modelos de governança, inteligência de risco e desenvolvimento de novos produtos para lidar com um mercado mais dinâmico e conectado.
Na plenária sobre resiliência cibernética, os participantes debateram a capacidade global e brasileira de resposta ao avanço da inteligência artificial, à modelagem de riscos, aos ataques digitais e a outros riscos emergentes. O tema reforçou a importância do resseguro como instrumento de sustentação financeira diante de perdas de alta complexidade.
A regulamentação do mercado de resseguros voltou ao centro do debate jurídico e econômico no Brasil. Em meio às discussões sobre novas normas da Superintendência de Seguros Privados (Susep), advogados especializados do setor fizeram um alerta: o excesso de intervenção regulatória pode comprometer a competitividade do mercado brasileiro, afastar práticas internacionais consolidadas e dificultar a transferência eficiente de riscos para o exterior.
Ainda na temática dos riscos, o papel do resseguro na infraestrutura foi um dos pontos de maior impacto prático do encontro. A plenária sobre seguro garantia e cláusula de retomada discutiu como o setor pode contribuir para a conclusão de obras públicas e privadas de grande porte.
Na avaliação da presidente da Fenaber, Rafaela Barreda, o evento reforçou o papel do resseguro como “engrenagem silenciosa da resiliência”. Segundo ela, em um mundo marcado por eventos climáticos extremos, ataques cibernéticos e tensões geopolíticas, a absorção e o compartilhamento de riscos são fundamentais para preservar investimentos, cadeias produtivas e estabilidade social. “Sem resseguro, não há ponte que se erga, não há safra que se garanta, não há investimento que se sustente”, afirmou.
O presidente da CNseg, Dyogo Oliveira, também defendeu maior integração entre seguros e resseguros. Para ele, as duas atividades são indissociáveis e terão papel cada vez mais relevante na ampliação da proteção da economia brasileira. Dyogo destacou que riscos climáticos, transformação digital e baixa penetração do seguro no país exigirão produtos mais acessíveis, comunicação mais clara e maior capacidade de redistribuição internacional de riscos.
Ao encerrar sua nona edição, o Encontro de Resseguro consolidou seu retorno como espaço estratégico para formulação de propostas, articulação institucional e fortalecimento do mercado. Mais do que uma agenda de debates, o evento mostrou que o resseguro ocupa posição central na resposta do setor segurador aos grandes riscos contemporâneos: da infraestrutura ao clima, da regulação à segurança cibernética.
