Crimes cibernéticos mobilizam mercado segurador

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A preocupação do mercado segurador, do órgão regulador e demais agentes do setor financeiro com os crimes cibernéticos foi a pauta do segundo dia do evento “Oficina Brasil Fides de Inovação em Seguros: intercâmbio de oportunidades e experiências em ESG e riscos cibernéticos”, realizado em Brasília. O diretor técnico da CNseg, Alexandre Leal, informou que o Brasil ocupa hoje o segundo lugar no ranking da América Latina com maior número de tentativas de ataques cibernéticos, tendo sido registradas 100 bilhões de investidas nesse sentido em 2022. O primeiro lugar é do México, com registro de 187 bilhões de tentativas no ano passado.

“Isso explica a razão de o tema sobre cyber segurança estar na pauta de todos os agentes do setor e precisa ser enfrentado com urgência. O cenário dos riscos cibernéticos evoluiu rapidamente por conta da digitalização dos processos e foram agravados pela pandemia”, comentou Leal, acrescentando o dado de que no ano passado houve cerca de 360 bilhões de tentativas de ataques deste tipo aos sistemas de empresas e organizações na América Latina e Caribe. Em termos de coberturas desse tipo de risco, o diretor informou que, em 2022, o valor arrecadado foi de R$ 170 milhões e o total de indenizações pagas chegou a R$ 64 milhões, o que demonstra ser um ramo ainda incipiente, mas com potencial de crescimento.

Durante os dois dias da Oficina Brasil FIDES, foram debatidos aspectos da evolução do setor segurador em segurança cibernética e de adoção de boas práticas nos temas ASG, com destaque para o meio ambiente, mudanças climáticas e políticas de diversidade e inclusão nas empresas no Brasil e nos outros países do Cone Sul da Fides (Argentina, Paraguai e Uruguai). 

Laboratório de segurança cibernética

O coordenador de TI da Febraban, Bento Filho, em sua palestra apresentou a iniciativa de criação do laboratório de segurança cibernética para atender as necessidades de prevenção e combate ao cybercrime, tornando-se o primeiro centro feito pelo sistema financeiro voltado para o treinamento e capacitação em cyber segurança, realização de simulações de ataques cibernéticos para se desenvolver respostas aos incidentes, aplicação de inteligência, padronização de ações e busca de inovação permanente. “Os bancos investem por ano cerca de R$ 30 bilhões em tecnologia e 10% disso são direcionados para a segurança, física e digital”, afirmou o representante da Febraban.

As seguradoras brasileiras estão mobilizadas nesse tema. De acordo com João Passos, executivo da Brasilseg, a pandemia promoveu uma aceleração da transformação digital em todos os segmentos, o que também ampliou os riscos. “Por isso, estamos nos dedicando a maturar as ações de segurança”, afirmou ele. Robson do Amaral, da Liberty Seguros, acrescentou que as empresas devem fazer autoavaliações sobre a que riscos estão mais expostas e esse “olhar para dentro de casa” precisa ser exercitado. “Não se trata só de ter um departamento de TI, ele nos dá o suporte. Mas é preciso que haja pessoas dedicadas a avaliar os riscos dentro das estratégias e também fomentar uma cultura de cyber segurança entre os colaboradores. Todos somos responsáveis”, defendeu Amaral.

Normas são fundamentais para dar o norte

Os executivos das seguradoras e os representantes da CNseg foram unânimes em afirmar que o envolvimento do órgão regulador de seguros é muito importante, pois são as normas que padronizam ações e elevam os debates e as trocas de informações sobre o tema. Representantes da Superintendência de Seguros Privados (Susep), responsáveis pela supervisão da aplicação das normas, destacaram o acompanhamento da adesão à circular 638/2021 que trata da política de segurança cibernética das seguradoras.

“Dentro desse contexto de transformação digital é possível ver oportunidades, mas não se pode esquecer dos riscos envolvidos”, afirmou Saulo Valle. “E vemos muito valor em trabalhar em parceria com o mercado, não de cima para baixo, mas com troca de informações e experiências para evoluirmos juntos”, completou Fernando Abreu. Ambos integram a Coordenação de Supervisão de Estrutura de Gestão de Riscos e Governança da Susep.

Compartilhamento de incidentes cibernéticos

O fundamental para se ampliar a proteção a ataques cibernéticos é a troca e o compartilhamento de dados, defendeu o diretor de Serviços da CNseg, André Vasco, ao apresentar no evento as principais características do banco de dados sobre incidentes cibernéticos coordenado pela entidade. O banco está disponível para as associadas da Confederação e ele centraliza informações sobre a ocorrência de incidentes em todo o mundo. Ao captar algo, o sistema dispara alerta às associadas e oferece uma proposta de correção para aumentar a proteção à falha. “Com um compartilhamento rápido de informação, ajudamos a reduzir riscos e aumentamos a proteção”, comentou Vasco.

Os representantes das associações da indústria seguradora de Argentina, Paraguai e Uruguai parabenizaram o Brasil pelas iniciativas de investimento em cyber segurança, admitindo que seus países ainda precisam avançar muito nesse tema. “Temos ainda um mercado muito pequeno nesse ramo, com poucas apólices voltadas a cobrir o risco cibernético. Estamos alguns passos atrás”, afirmou Gustavo Trias, diretor-executivo da Associação Argentina de Companhias de Seguros. Ele comentou sobre algumas ocorrências e tentativas de ataques registrados na Argentina, mas acrescentou que ainda não há uma consciência das empresas em comunicar os incidentes, o que ajudaria numa evolução mais rápida.

O presidente da Associação Paraguaia de Companhias de Seguros, Antonio Vaccaro, afirmou que também falta uma cultura de cyber segurança em seu país, o que faz com que não haja produtos de seguro nesse tema. No campo da gestão, ele informou que existem iniciativas, mas incipientes, de regulação da tecnologia da informação das empresas seguradoras por parte do órgão regulador local. O diretor-executivo da Associação Uruguaia de Empresas de Seguros, Alejandro Veiroj, relatou uma situação parecida com a dos dois vizinhos, afirmando que o Uruguai ainda está muito atrás na questão de cyber segurança.

Questões ambientais, sociais e de governança (ASG)

A evolução do setor segurador em termos de boas práticas relacionadas às questões ambientais, sociais e de governança (ASG) foi o tema do primeiro dia da Oficina Brasil FIDES de Inovação em Seguros, realizada pela CNseg, em 13 e 14 de abril, em Brasília.

“Nosso objetivo principal é discutir e explorar novas visões de negócios voltadas à construção de parcerias para o endereçamento de temas estratégicos relacionados à cibersegurança e ASG”, afirmou a diretora de Sustentabilidade, Consumo e Relações Institucionais da CNseg, Ana Paula de Almeida Santos.   

Segundo dados do Relatório Global Risks Report 2023, do Fórum Econômico Mundial, anunciados em janeiro deste ano, riscos ligados à cibersegurança, bem como aqueles associados a questões ASG (com maior peso para mudanças climáticas), estão listados como os de maior preocupação global para os próximos anos.

Avaliação de riscos climáticos contará em breve com nova ferramenta de apoio 

O projeto “Insuring the Climate Transition in Brazil”, que tem o objetivo de fomentar o melhor entendimento dos representantes do setor segurador sobre como analisar o risco climático, foi apresentado pela sócia-diretora da consultoria NINT de avaliação ASG, Tatiana Assali. Elaborado sob a perspectiva da Força Tarefa para Divulgação de Informações Financeiras Relacionadas a Riscos Climáticos (TCFD, na sigla em inglês), o projeto conta com uma ferramenta alimentada com dados das companhias de seguro, que será capaz de mapear os riscos climáticos em todos os estados brasileiros e medir as suas exposições a 12 desses riscos. 

Os requisitos de sustentabilidade na regulação da SUSEP  

Os coordenadores da Susep de Regulação Prudencial e de Regulação de Riscos, Ativos e Controles Internos, César Neves e Victor de Almeida França, apresentaram um painel sobre o acompanhamento da regulação brasileira de seguros relacionada a requisitos de sustentabilidade, prevista na Circular Susep 666. 

De acordo com César Neves, a norma foi elaborada com base nas melhores práticas internacionais e em uma grande discussão com o mercado segurador, demandando que as supervisionadas adotem metodologias, processos, procedimentos e controles específicos para identificar, avaliar, classificar, mensurar, tratar, monitorar e reportar, de forma tempestiva, os riscos de sustentabilidade a que se encontram expostas.  

O coordenador da Susep afirmou que a Superintendência de Seguros Privados tem o compromisso de, junto com as empresas do setor, buscar soluções para combater os efeitos das mudanças climáticas. 

Diversidade, equidade e inclusão  

O tema da diversidade, equidade e inclusão também esteve presente no primeiro dia do evento, quando a conselheira da Associação Brasileira de Recursos Humanos, Íris Pereira Barbosa, destacou a importância de as seguradoras se preocuparem com aumentar a diversidade de gênero, raça e condições sociais em suas companhias. “Existe hoje uma exigência da própria sociedade, em todo o mundo, com relação a isso. Há também uma pressão econômica, porque é possível verificar pelas estatísticas que empresas diversas geram mais e melhores resultados”, afirmou palestrante.  

Durante sua participação, ela falou sobre sua trajetória profissional e os desafios enfrentados por uma mulher negra para ultrapassar as barreiras impostas pela sociedade, explicando que, além de conscientização, é necessário coragem para enfrentar as dificuldades.  

A integração das questões socioambientais e de sustentabilidade com a indústria seguradora

Atualmente, 86,4% das seguradoras associadas à CNseg já integram as questões ASG em suas estratégias de negócios, como consta no Relatório de Sustentabilidade do Setor de Seguros, produzido pela CNseg, tema da palestra da diretora de Sustentabilidade da Mapfre Brasil, Fátima Lima, que também integra a Comissão de Sustentabilidade da Confederação. Sua avaliação é de que há uma total integração das questões socioambientais e de sustentabilidade com a indústria seguradora. “Temos que estar conectados às tendências mundiais econômicas, políticas e sociais. As questões climáticas vêm impactando cada vez mais o setor de seguros, o que nos exige atenção aos prejuízos que estão batendo à nossa porta. É fundamental olhar com profundidade e seriedade este tema”, disse Fátima Lima. 

Países do Cone Sul ainda carecem de regulações sobre a questão ASG  

Os temas ASG também estão na pauta dos demais países latino-americanos e podem ganhar ainda mais espaço nessa agenda, de acordo com os relatos de representantes das associações de seguradoras da Argentina, do Paraguai e do Uruguai.  

O diretor-executivo da Associação Argentina de Companhias de Seguros, Gustavo Trias, afirmou que em seu país o assunto é recente e que ainda carece de normas regulatórias.  

O diretor-executivo da Associação Uruguaia de Empresas de Seguros, Alejandro Veiroj, participando por videoconferência, relatou que no Uruguai também não há nenhuma norma ou regulamentação a respeito do tema ASG, apenas um protocolo de intenções das empresas que atuam no mercado local. 

O presidente da Associação Paraguaia de Companhias de Seguros, Antonio Vaccaro, por sua vez, informou que também há deficiências regulatórias em relação aos riscos climáticos no Paraguai. A oferta de seguro agrícola, inclusive, ainda é recente, declarou, com poucas empresas trabalhando com esse tipo de cobertura.   

A Oficina Brasil FIDES de Inovação em Seguros é realizada em cumprimento ao Acordo de Cooperação Técnica firmado em novembro de 2022, em Santiago, no Chile, com a Federação Interamericana de Empresas de Seguro e antecede a 38º Conferência Hemisférica de Seguros, que a Confederação Nacional das Seguradoras vai promover em setembro deste ano, no Rio de Janeiro. 

Crédito foto – Rafael Chaves

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